Hoje, 4 de fevereiro, é o dia Mundial contra o Câncer. E, para marcar essa data que, para nós, é diária e principal missão, vamos contar uma história emocionante de empatia. A protagonista é uma contadora de histórias, com uma visão de vida múltipla e cheia de compreensão. Elisângela Pires tem 45 anos, é casada e tem 3 filhos. Pedagoga pela Unijuí, especialista em docência na Educação infantil – UFSM/ MEC, ela conta histórias desde 1998. Atualmente, é coordenadora da E.M E I Raios de Sol de Ijuí, onde, cotidianamente, escuta histórias de vida, as mais diversas possíveis. 

Seu filho mais velho tratou por muitos anos uma síndrome neurológica, caracterizada por epilepsia focal e mioclonica. Foi durante o tratamento que um médico lhe disse que ela poderia aprender tudo e qualquer coisa sobre a doença de um filho, além de auxiliar no processo de estimulação e aprendizagem. Isso fez ela pensar os processos de recuperação de um jeito diferente. Para ela, aprender é parte imprescindível da vida, não importa o assunto. Vamos conhecer sua história?

“Sempre tive vontade de cortar o cabelo e doar, mas ele não crescia o suficiente, era muito fino. Quando a Roselei Bonetta desafiou a Diretora Elizete Pires a realizar um evento alusivo ao outubro rosa, já coloquei o meu cabelo a disposição. No dia 22/11/19, no evento, a cabeleireira me falou “para doar, precisa tirar tudo”. Nem pensei muito e respondi: “tira”. Passei a máquina 1 e pela primeira vez na vida adulta, senti o vento passear pelo meu couro cabeludo e foi ótimo.

Fui chamada de muitas coisas: louca, extravagante, doente… Não me importei, pois para mim, sempre foi só cabelo, mas para quem está fragilizada pode ser um escudo cheio de força e motivação. 

Desde que cortei o cabelo, logo nos primeiros dias percebi que havia ganho uma ótima oportunidade de pensar sobre como as pessoas agem quando se deparam com uma mulher de cabeça raspada. Foi necessário conversar com as crianças da escola sobre o que é doar, sobre o que significa empatia, sobre refletir como é sentir a dor do outro. Passei nas salas e foi lindo substituir “olha que feio, ela é careca” por ” sabe, mãe, que a Profe Elis deu o cabelo dela para fazer uma peruca e dar pra quem tem câncer? Sabe que câncer e uma doença séria e difícil?

Conversei com uma criança que me apontou em um mercado: “olha a careca, que feia aquela mulher”, apontando com o dedo e a mãe tentando justificar dizendo: “baixa o dedo, não tá vendo que ela é doente e vai morrer?”. Fiquei chocada e fui até a menina e disse que percebo que ela notou a falta de cabelo, então perguntei se sabia por que cortei e ela acenou negativamente com a cabeça. Contei que há muitas mamães, muitas filhinhas, avós, avôs, dindas, tias que estão sem cabelos por estarem doentes e precisam fazer uso de um remédio que cura, mas pode fazer o cabelo cair. Então, para que não ficassem sem cabelos, eu dei o meu, que logo iria crescer. Que estou saudável e ainda não vou morrer. A menina passou a mão na minha cabeça e sorriu.  A mãe disfarçou, eu voltei tranquila para a fila do pão e fiquei pensando: e se eu estivesse com medo de morrer, como me sentiria ao ouvir aquela mãe?

Outra situação marcante foi no dia do corte, quando as fotos percorreram o whatsapp e alguns colegas do meu marido comentaram por aplicativo que se fosse a mulher deles, não deixariam entrar em casa. Fiquei estarrecida. Foi então que fizemos uma foto (de pijama🤭) escrito: no nosso caso, não ter cabelos foi uma opção e que eu esperava que maridos pudessem ser homens suficiente para estarem com suas mulheres quando não ter cabelos, não fosse uma opção. Depois disso, entendi as estatísticas de abandono das mulheres em quimioterapia por seus maridos ou parceiros. É triste, mas precisamos encarar e trabalhar culturalmente estas questões.

Aprendi que existem, no mínimo, duas formas de olhar para as pessoas com câncer que passam cotidianamente pelas ruas, mercados, padarias, farmácias: com empatia e normalidade; com receio e preconceito. Entendi que quem sente dor é mais solidário com a dor do outro. Que é necessário abordar com as crianças, para que entendam a situação. Que é difícil viver sem cabelos, mas é possível sim. Que mulheres são muito mais do que longos fios de cabelo na cabeça. Que existem organizações que auxiliam pessoas acometidas pela doença e isso é muito importante. E que sou feliz, tenho saúde!

Tenho muitas amigas e amigos em tratamento no Instituto de Oncologia de Ijuí, e poder contar com um espaço de acolhimento, tratamento e amparo é fundamental numa situação de doença. Quando fui patronesse na feira de livros fui contar histórias no IOI, sempre levo doações de cabelos, algumas pessoas até pensam que trabalho lá. Admiro e respeito cada funcionário, cada paciente, cada familiar! A comunidade precisa deste espaço.” 

Para quem não sofre da doença, Elisângela acha essencial aproveitar sua saúde fazendo algo por alguém que, neste momento, não tem. E aconselha a procurar o Instituto de Oncologia e ajudar, auxiliando com lanches, doações de produtos (saber quais em específico é importante) e até mesmo apresentações culturais, que ajudam a passar o tempo e a pensar em outras coisas. 

Tem uma história ou um relato para compartilhar com a gente? Deixe nos comentários e leve essa lição de empatia para o seu dia a dia.